Aos 80 anos, cineasta Costa-Gavras fala sobre 'O
Capital', filme em que discute o poder e a crise na Europa
Douglas
Gravas de S. Paulo
Constantin
Costa-Gavras descarta a bandeira de "cineasta político". "Faço
filmes sobre o que vejo", diz. "Mas todos os filmes são políticos.
Não há nada mais político do que um filme de super-herói."
Com 80 anos de idade e 55 de cinema, ele se
tornou conhecido ao filmar o caso real do assassinato de um político grego em
"Z" (1969), longa que lhe rendeu o Oscar de filme estrangeiro.
Sua vasta filmografia inclui ainda críticas a
regimes militares -- "Estado de Sítio" (1972) e "Desaparecido -
Um Grande Mistério" (1982)--, mas seu inimigo parece ter trocado as armas
pelos labirintos do sistema financeiro.
Em 2012, Gavras adaptou o romance "Le
Capital", do francês Stéphane Osmont. O resultado, "O Capital",
retrata a sobreposição dos bancos à democracia pela perspectiva de um ambicioso
executivo e tem previsão de estrear no Brasil no próximo dia 31.
Ao tecer um retrato da crise financeira que
assola o continente desde 2008, o cineasta greco-francês é enfático: "A
Europa se tornou um grande supermercado".
Costa-Gavras lamenta os rumos atuais da União
Europeia ao lembrar sua chegada à França em 1954, filho de um imigrante que
lutara na ala esquerdista da Resistência Grega aos nazistas na Segunda Guerra
Mundial (1939-45).
As atividades políticas de seu pai tornaram
insuportável a vida na Grécia, então sob um regime militar, e a tentativa de
emigrar para os Estados Unidos seria impossível com as duras leis do
macarthismo --período de caça implacável a suspeitos de ligações com o
comunismo.
Leia a seguir trechos da entrevista que ele
concedeu por telefone à Folha da casa em que vive há 50 anos em Paris.
Folha - De onde nasceu a ideia para filmar "O Capital"?
Costa-Gavras - O filme começou a ser produzido antes da crise de 2008, pois queria retratar os riscos de endividamento que a Europa enfrenta já há vários anos. Essa preocupação levou-me a ler muitos romances com viés econômico, entre eles o de Osmont, que era assessor financeiro de algumas das maiores empresas da Europa.
O que há de marxista no filme?
Nada muito além do título. Nos dois casos, fala-se do dinheiro e do perigo da sua acumulação, mas o filme não é uma condenação ao capitalismo, apenas ao modelo atual. O dinheiro é um instrumento extraordinário, permite a comunicação, as trocas. Mas também é um mecanismo de corrupção.
Nada muito além do título. Nos dois casos, fala-se do dinheiro e do perigo da sua acumulação, mas o filme não é uma condenação ao capitalismo, apenas ao modelo atual. O dinheiro é um instrumento extraordinário, permite a comunicação, as trocas. Mas também é um mecanismo de corrupção.
O sistema financeiro criou uma nova estrutura de
poder?

