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6 de junho de 2013

Autora não faz acordo com advogado de Roberto Carlos



Julio Maria - Agência Estado


De um lado, a editora Estação das Letras e Cores e a pesquisadora Maíra Zimmerman. De outro, o advogado Marco Antonio Campos e o cantor Roberto Carlos. No centro, um livro sobre a força da Jovem Guarda nas transformações da moda e da juventude. Nos bastidores, uma surpreendente tentativa de acordo.
Há menos de um mês, Roberto Carlos, representado legalmente por Campos, pediu dez dias para que o livro "Jovem Guarda - Moda, Música e Juventude", de Maíra, fosse retirado das lojas, alegando abordagem de sua privacidade e uso indevido de sua imagem na capa. Maíra primeiro levou um susto. Depois, decidiu enfrentar a situação. O livro, financiado pela Fapesp, resultado de uma tese de mestrado no curso de Moda, Cultura e Arte do Centro Universitário Senac, não traz menções à vida íntima do cantor. Sua imagem aparece na capa ao lado de Wanderléa e Erasmo Carlos em forma de caricatura. Quem escreve a apresentação é a própria cantora Wanderléa.
Decididos a não jogar a toalha, os advogados da autora e da editora responderam à notificação enviada por Campos com uma firme contranotificação. "O meu livro é uma pesquisa acadêmica, baseada em fontes do período, e não há análise da intimidade dos integrantes do movimento. A história da Jovem Guarda não deve ser tratada de forma patrimonialista", diz Maíra.
Dias depois, Campos pediu um acordo com os representantes da pesquisadora, que redigiram os termos do documento e o enviaram ao advogado. A intenção das partes era a de eliminar o conflito, mas não tem sido tão simples. Ao receberem o mesmo documento de volta por e-mail, com as correções em vermelho feitas no escritório de Campos, os representantes da autora e da editora se surpreenderam. De forma objetiva, o documento dizia agora que "as notificadas (Maíra e sua editora) pedem autorização ao notificante (Roberto Carlos) para a utilização de seu nome e sua imagem na obra". E completava: "O notificante concede a autorização solicitada para todos os efeitos de direito".
As colocações de Campos no documento que faria o assunto ser esquecido e o livro circular livremente indignaram a autora e seu advogado. "Assim, ele coloca Maíra em uma situação de erro, como se ela tivesse obrigação de ter pedido autorização antes de lançar um livro que nem é uma biografia. Isso fere a liberdade de expressão", diz o advogado de Maíra, Rodrigo Correa. A editora se alinhou à sua cliente e entendeu que assinar tal declaração seria o mesmo que redigir uma confissão de culpa: "Uma retratação da autora está fora de cogitação. Ela não pode fazer isso, uma vez que não cometeu erro algum", diz Gilberto Mariot, que fala em nome da Estação das Letras e Cores.
A reportagem entrou em contato com o escritório de Campos por dois dias. Na terça, sua secretária informou que ele estava em uma reunião em Brasília, mas que poderia responder a e-mails. Perguntas foram enviadas para seu endereço eletrônico, mas as respostas não vieram. Ontem (5), sua secretária informou que ele estava em reunião. Até o fechamento desta edição, Campos não havia respondido aos pedidos de entrevista do jornal.
O que seria um acordo de paz para ambas as partes se tornou um impasse e os e-mails e telefonemas pararam de ser trocados. Mariot não descarta a possibilidade de Roberto ir à Justiça, já que até o momento foram trocadas apenas notificações extrajudiciais.

Fonte – hojeemdia.com.br

8 de maio de 2013

Quando eu for, vou sem pena




Por Ana Ferraz

A despedida de Paulo Vanzolini, notável cientista e decantado poeta do samba, que morreu em São Paulo aos 89 anos.

No último samba, Quando Eu For, Eu Vou sem Pena (1977), lindamente gravado por Chico Buarque na coletânea Acerto de Contas (2003), caixa de quatro CDs que o zoólogo de veia poética e humor corrosivo considerou o fecho de ouro de sua carreira musical, Paulo Vanzolini foi premonitório. Quando eu for, eu vou sem pena/ Pena vai ter quem ficar, anuncia a letra. No domingo 28, Vanzolini sucumbiu a uma pneumonia. Tinha 89 anos bem vividos e um coração que mesmo com 30% da capacidade ainda batia entusiasmado pelo samba. Cientista respeitado dentro e fora do País, autor de 155 artigos acadêmicos e vencedor de prêmios importantes, como o outorgado em 2012 pela Fundação Konrado Wessel, fez da música um hobby que rendeu clássicos como Ronda, Volta por Cima, Praça Clóvis e outras belas e menos conhecidas canções, como Valsa das Três da Manhã e Cravo Branco. Modesto, achava graça do título de embaixador do samba tantas vezes a ele conferido. “Não tenho por que ter essa vaidade”, disse em entrevista a CartaCapital em janeiro de 2012.
Autodeclarado duro de ouvido e incapaz de escrever ou ler partituras, Vanzolini compôs cerca de 70 músicas. “Meu professor foi o rádio.” Deleitava-se com os sambas de Noel Rosa (“meu mestre de tudo”), Dorival Caymmi, Cartola, Nelson Cavaquinho, Geraldo Filme, Paulo Nogueira, Dona Ivone Lara, Adoniran Barbosa e com as vozes de Nelson Gonçalves, Orlando Silva e Silvio Caldas. “Ouço esses compositores até hoje, são essenciais.” Com Nelson Cavaquinho a relação ultrapassava a admiração. “Éramos muito amigos. Tomávamos muita cerveja aqui em casa.” Com Adoniran, companheiro assíduo de cachaça e conversa fiada, jamais houve parceria musical. “Nossa conversa era cotidiana. Não rendeu música. Eu nunca compus com ninguém, compuseram comigo”, dizia, riso satisfeito de quem não perde a piada.

A casa do compositor no Cambuci, estrategicamente próxima da adorada Escola de Samba Lavapés e na região “dos melhores bares da cidade”, frequentados até recentemente para o sagrado ritual da cervejinha, foi ponto de encontro da nata do samba: Roberto Silva, Paulinho da Viola, Eduardo Gudin, Paulinho Nogueira, Martinho da Vila. Reuniam-se para cantar, tocar e compartilhar causos, esporte em que Vanzolini era versado. Inconfidências costumavam ser bem-vindas. Como a história do ciúme de Cacilda Becker em relação a Mariinha, Tônia Carrero, por causa de Adolfo Celi. Na época, Vanzolini namorava Cleide Yáconis, irmã de Cacilda. Nessas reviravoltas que a vida dá, Tônia acabou por levar a melhor e se casou com Celi. A cena em que Cacilda vai ao teatro tomar satisfações de Tônia é antológica, mas, a pedido do entrevistado, fica como apimentada indiscrição cometida no calor da entrevista e restrita a quem ali estava.
Filho de um professor de estatística e economia da Escola Politécnica, o paulistano Vanzolini nasceu “com um livro na mão”. Recitava poemas, lia de João Guimarães Rosa a Homero. A medicina foi uma escada para o que realmente lhe interessava, a zoologia. Tornou-se o mais notável especialista em répteis do País, embrenhou-se Amazônia adentro em busca de exemplares, percorreu a América do Sul, vasculhou a Patagônia. Relembrou com emoção o momento em que localizou na selva amazônica o macaco descoberto por um aluno. “Pegamos o barco e fomos atrás. Achamos um igarapé onde uma mulher lavava roupa. Perguntou o que estávamos vendendo. ‘Estamos nesse negócio do mico-de-cheiro. Tem aqui?’ ‘Depende, se vocês querem o de cabeça preta é deste lado, o de cabeça vermelha é do outro’. Quase desmaiei. O bicho foi batizado como Saimiri vanzolini.”

Surpreendia na personalidade do cientista e poeta a capacidade de conciliar disciplina e boemia. O pesquisador que trabalhou 47 anos no Museu de Zoologia, 31 dos quais como diretor, era o mesmo que saía pelas madrugadas de uma São Paulo poeticamente prateada pela garoa. O faro de caçador de bichos provou-se afiado para talentos. Revelou artistas como Os Macambiras, Virgínia Rosa, Martinho da Vila. Foi numa andança pelo Centro, ainda com patrulha do Exército, que observou a cena inspiradora de Ronda. “Via as mulheres da vida entrar, olhar no bar e ir embora. Fiquei pensando o que tinha por trás disso.”
Vanzolini não nutria por Ronda o mesmo apreço do público que a abraçou como um dos hinos da cidade. Achava que ninguém tinha entendido a ironia. “É uma piada. A mulher está atrás do cara para desperdiçar um pente de revólver.” Entre suas favoritas estava Longe de Casa Eu Choro (parceria com Eduardo Gudin), feita durante o doutorado em Cambridge, nos EUA: (...sinto falta de São Paulo/ De escutar na madrugada/ Uns bordões de violões/ E uma flauta a chorar prata/ Dor de amor não me magoa/ A saudade da garoa é que me mata”). E, bem ao seu estilo, gostava da deliciosamente irreverente Juízo Final. Absolvido dos pecados (“no geral bem pesados”), o poeta elevado aos céus observa satisfeito o panorama no andar inferior: “Agora só toco harpa/ De camisola e sandália./ Espio pra ver lá embaixo/ A quadrilha da fornalha./ Aquela ingrata hoje está/ Trabalhando de salsicha,/ Espetadinha no garfo/ Satanás fritando a bicha./ Ô demônio, capricha!”

Fonte - Carta Capital

29 de abril de 2013

A sabedoria do boêmio



O compositor e zoólogo Paulo Vanzolini, de 89 anos, morreu às 23h35 de domingo 28, segundo o Hospital Israelita Albert Einsten. Confira reportagem sobre ele publicada em janeiro de 2012


Noite dessas, Paulo Vanzolini sonhou com uma poesia de Olavo Bilac que decorou quando ainda era rapazote. Os versos, que são muitos, vieram por inteiro. Aos 88 anos, o autor de composições que atravessaram gerações sem perder a força, como Ronda e Homem de Moral, conserva a prodigiosa memória e se mantém imperturbável diante da fama.
Considerado por muitos o embaixador do samba de São Paulo, ele agradece o epíteto. “Não é verdade, mas eu gosto”, diz, sorriso nos lábios. Acomodado numa poltrona de couro na modesta casa do Cambuci, “bairro cheio de bares ótimos”, o homem culto que cresceu rodeado de livros e se tornou zoólogo de reputação internacional põe em perspectiva a criação de uma vida, 70 composições e 155 trabalhos científicos. “Que glória é essa, meu Deus”, questiona, num lapso, o declarado ateu, bisneto de anarquista. “É uma glória muito humilde. Não tenho motivos para ser vaidoso.”
Nesta sexta 27, semana em que São Paulo completa 458 anos, Vanzolini concederá ao público o privilégio de tê-lo na Choperia do Sesc Pompeia. Instalado numa mesa, cervejinha à mão, o artista acompanhará alguns de seus grandes sucessos, interpretados por Ana Bernardo e Carlinhos Vergueiro. Entre uma canção e outra, o show será pontuado pelas reminiscências do compositor que, junto com Adoniran Barbosa, de quem foi “amigo de muitas cachacinhas”, traduziu a cidade de forma definitiva.
 Adoniran era ótima pessoa, nos dávamos muito bem. O cara mais desligado que já conheci. Vinha de família italiana do Vêneto. De menino o chamavam de Joanim.” Os longos papos entre Vanzolini e João Rubinato (Adoniran), que em sua simplicidade dizia não entender bem o que o cientista fazia (“ele mexe com zoológico, sei lá”), jamais renderam samba. “Sempre me pedem para contar como era nossa conversa. Era muito cotidiana. Não tinha nada demais. Era nossa conversa.”
A famosa Tiro ao Álvaro,  relembra, surgiu como um presente do jornalista e escritor Osvaldo Molles ao amigo Adoniran. Foi Molles também o criador do personagem Charutinho, de tiradas engraçadas embaladas por sotaque italianado, que interpretou com grande sucesso na Rádio Record. “Adoniran acabou assumindo na vida real o personagem da ficção. No fundo, ele era mesmo só o Joanim.” Quando a saudade aperta, Vanzolini dirige-se ao Mercado Municipal, o Mercadão da capital paulista. “Colocaram uma estátua do Adoniran numa mesa. De vez em quando vou lá tomar uma cerveja com ele.”
A prosa animada de repente silencia. O olhar do compositor vagueia pela sala, ambiente que Ana Bernardo, sua atual mulher, define como “totalmente masculino”. Justifica-se a quase queixa: sobre um aparador, uma grande cobra de madeira exibe a boca aberta (souvenir comprado na Espanha). A seu lado, outra, bem mais modesta nas medidas, porém, verdadeira, exibe-se sobre um tronco. Para alívio dos visitantes, o exemplar não se move, foi plastificado graças a uma técnica especial. A terceira fica na mesinha de centro. Ao lado da porta de entrada, o cabideiro dá pistas sobre a atividade profissional do dono da casa. Ali estão os chapéus que Vanzolini usava para adentrar o mato em busca de bichos.

Compositor Paulo Vanzolini morre aos 89 anos em São Paulo






O compositor e zoólogo Paulo Vanzolini morreu neste domingo aos 89 anos, vítima de complicações decorrentes de uma pneumonia. Ele estava internado desde a noite da última quinta (25), seu aniversário, na UTI do hospital Albert Einstein, em São Paulo.
Deixa mulher, a cantora Ana Bernardo, e cinco filhos do primeiro casamento.
Um dos ícones do samba paulistano, criou clássicos como "Ronda", "Volta por Cima" e "Praça Clóvis", interpretados por grandes nomes da MPB, como Chico Buarque, Maria Bethânia e Paulinho da Viola.
No mês passado, Vanzolini foi um dos 87 artistas a se apresentar em evento no Teatro Oficina para arrecadar fundos para reformar e ampliar a Casa de Francisca, pequena casa de shows paulistana. Também em março, recebeu o Prêmio APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) pelo conjunto da obra.
Compositor bissexto, de músicas que chegavam a demorar um ano a ficar prontas, Vanzolini não tocava nenhum instrumento (para escrever as canções, entoava-as a amigos músicos) e tinha, assumidamente, um "grande problema com a afinação" (como disse em entrevista ao "Jornal do Brasil", em 1970), mas se firmou como um grande compositor de samba.
Compunha nas horas vagas do trabalho como zoólogo de renome internacional especializado em répteis. Com doutorado em Harvard, Vanzolini foi por três décadas diretor do Museu de Zoologia da USP, onde trabalhou por mais de 50 anos.
"Não tenho carreira de compositor. Música, para mim, é um hobby. Trabalho 15 horas por dia como zoólogo, adoro minha profissão. Não sei cantar, nem sei a diferença entre o tom maior e o menor", disse, em 1997, em entrevista à Folha.

Fonte – Folha de SP



16 de abril de 2013

Caetano sugere que Feliciano serve ao Diabo




O cantor dedicou sua coluna em o Globo deste domingo para comentar a declaração do presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara de que ele teria feito pacto com o Diabo para ter sucesso com a música 'Sozinho'; ao dizer que Feliciano usa de "mentira" e de "injustiça", Caetano sugere que é ele quem serve de fato a Satanás; "Eu creio na justiça e na verdade. Esses valores atribuídos a Deus têm minha adesão irrestrita. Não sei que Deus sustenta a injustiça e a mentira. Ou será que é aí que o diabo está?"

O cantor e compositor Caetano Veloso se defendeu em artigo no jornal O Globo das afirmações do presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara, deputado Marco Feliciano (PSC-SP), de que ele teria feito pacto com o Diabo para ter sucesso no disco que lançou em 1998 cuja música de trabalho foi 'Sozinho'.
De forma bastante sutil e "calma", como ele próprio diz no artigo, Caetano sugere no final de sua coluna que, ao contrário, quem anda em proximidade com o Diabo é o deputado cristão.
Ao dizer em diversos momentos no texto que Feliciano usa de "mentira" e de "injustiça", o cantor admite que não é adepto de nenhuma religião, mas afirma que acredita em justiça e verdade como valores de Deus. É aí que ele sugere que Feliciano serve, de fato, a Satanás.
"Eu creio na justiça e na verdade. Esses valores atribuídos a Deus têm minha adesão irrestrita. Não sei que Deus sustenta a injustiça e a mentira. Ou será que é aí que o diabo está?".
Na semana passada fez sucesso no Youtube um vídeo onde Feliciano aparece em um culto religioso dizendo que o cantor baiano da MPB "tomou bênção" a Mãe Menininha do Gantois antes de gravar 'Sozinho' e que, no momento da bênção, a ialorixá estava "possuída".
Caetano rebate. "Mãe Menininha, figura importante da história cultural brasileira, já tinha morrido fazia cerca de dez anos quando gravei a canção". Abaixo a íntegra do artigo de Caetano Veloso em O Globo.
Ainda Feliciano?
Nem estou acreditando que volto ao assunto do pastor/deputado/presidente da CDHM. Mas, como muitos devem ter visto, ele mentiu reiterada e estridentemente sobre mim. Há um vídeo no YouTube em que Feliciano, esbravejando de modo descontrolado, diz-se com Deus contra o diabo e, para provar isso, mente e mente mais. As pessoas religiosas deveriam observar o quanto ele está dominado pela soberba. Faz pouco, ele se sentiu no direito de julgar os vivos e os mortos, explicando por meio de uma teologia grotesca a morte dos garotos dos Mamonas e sagrando-se justiçador de John Lennon. Agora, aferra-se à mentira. Meu colega Wanderlino Nogueira notava, com ironia histórica sobre as espertezas da igreja católica, que a mentira não está entre os sete pecados capitais. Mas sabemos que "levantar falso testemunho" é condenado pelo Deus de Moisés. Por que mentir tão descaradamente sobre fatos conhecidos? Será que minha calma observação, aqui neste espaço, de que sua persona pública é inadequada ao cargo para o qual foi escolhido (matizada pela esperança no papel das igrejas evangélicas) o ameaça tão fortemente? Eu diria a pastores, padres, rabinos ou imãs — sem falar em pais de santo e médiuns espíritas, que são diretamente agredidos por ele — que atentassem para o comportamento de Feliciano: como pode falar em nome de Deus quem mente com tão evidente consciência de que está mentindo?
Sim, porque não há, dentre aqueles que prestam atenção no meu trabalho, quem não saiba que, ao cantar a genial canção de Peninha "Sozinho" num show, eu indefectivelmente dizia não apenas que me apaixonara por ela através das gravações de Sandra de Sá e de Tim Maia: eu afirmava que cantá-la ao violão era só um modo de chamar a atenção para aquelas gravações. Como pode Feliciano dizer que "a imprensa foi rastrear" e descobriu que a música já tinha sido gravada por Sandra e Tim? Essas duas gravações eram sucessos radiofônicos. E como pode ele, sem piedade daqueles que com tanta confiança o ouvem em seu templo, afirmar que eu disse em entrevista coisa que nunca disse e nunca diria, ou seja, que o êxito inesperado de minha versão de "Sozinho" se deveu a eu ter mostrado a faixa a Mãe Menininha e esta ter-lhe posto uma bênção que, para Feliciano, seria trabalho do diabo? Mãe Menininha, figura importante da história cultural brasileira, já tinha morrido fazia cerca de dez anos quando gravei a canção.
É muita loucura demais. E muita desonestidade. Aprendi com meu pai os gestos da honestidade — e tomei o ensinamento de modo radical. Me enoja ver a improbidade. Feliciano sabe que eu nunca dei tal entrevista. Mas não se peja de impressionar seus ouvintes gritando que eu o fiz. Ele, no entanto, não sabe que eu jamais sequer mostrei qualquer canção minha à famosa ialorixá. Nem a Nossa Senhora da Purificação eu peço sucesso na carreira. Nunca pedi. Nem a Deus, nem aos deuses, e muito menos ao diabo. Decepciono muitos amigos por não ser religioso. Mas respeito cada vez mais as religiões. Vejo mesmo no cristianismo algo fundamental do mundo moderno, algo inescapável, que é pano de fundo de nossas vidas. Mas não sou ligado a nenhuma instituição religiosa. Eu me dirigiria aqui àqueles que o são.
Os homens crentes devem tomar atitude mais séria em relação a episódios como esse. O que menos desejo é ver o Brasil dividido por uma polaridade idiota, em que, de um lado, se unem os que querem avanços nos costumes, e de outro, os que necessitam fundamentos de fé, ambos gritando mais do que o conveniente, e alguns, como Feliciano, saindo dos limites do respeito humano. Eu preferiria dialogar com crentes honestos (ou ao menos lúcidos). Não aqueles que já se põem a uma distância segura da onda neopentecostal. Eu gostaria de dialogar com um Silas Malafaia, de quem tanto discordo, mas que respeita regras da retórica e da lógica. Marina Silva seria ideal, mas poupemo-la. Não é preocupante, eu perguntaria a alguém assim, que um dos seus minta de modo tão escancarado? É fácil provar que nunca fiz aquelas declarações e é fácil provar que Sandra e Tim tiveram êxito com a obra-prima de Peninha. E que eu louvei esse êxito ao cantar a canção. Foram dezenas de milhares de brasileiros que ouviram. Se Feliciano precisa, para afirmar sua postura religiosa, criar uma caricatura caluniosa dos baianos e da Bahia, algo é muito frágil em sua fé. A maré montante do evangelismo não dá direito à soberba irrefreada. O boneco tem pés de barro. E cairá. Eu creio na justiça e na verdade. Esses valores atribuídos a Deus têm minha adesão irrestrita. Não sei que Deus sustenta a injustiça e a mentira. Ou será que é aí que o diabo está?

Fonte – Brasil247